“Tenho a convicção de que o setor continuará crescendo no próximo ano”
A geração distribuída cresce de forma importante no Brasil e a Review Energy conversou com Guilherme Chrispim, Presidente do Conselho da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) e Diretor de desenvolvimento de negócios da área comercial do Grupo Melo Cordeiro, para conhecer suas perspectivas sobre o setor de GD no Brasil.
O Brasil atingiu a marca de 400 mil unidades consumidoras se beneficiando com geração distribuída. Como você vê o papel da geração distribuída na retomada da economia, durante esse período pós pandemia?
Eu vejo de forma muito positiva. Se nós olharmos o mercado de uma forma geral, o setor de energia renovável foi um oásis comparado a outros setores que sofreram muito com este momento da pandemia.
O setor cresceu, os nossos números são maiores que durante o mesmo período do ano anterior; poderíamos ter resultados ainda melhores se não houvéssemos passado por tudo que aconteceu esse ano, ainda assim comparado a outros setores e, a mesma GD em 2019, o crescimento que observamos esse ano foi fantástico.
Em relação à energia renovável o Brasil continua sendo referência na região. Quais fatores, relacionados à maturidade do setor, o você acredita que contribuíram para que, nesse período pandêmico, a GD continuasse crescendo?
Eu penso que há uma série de vantagens que permitiram este crescimento; nosso país é muito grande, com muita disponibilidade de terra, e com uma incidência solar reconhecidamente muito boa; então o investimento em energia solar para geração distribuída tem garantia de retorno.
Somado a estes fatores, nós temos um custo da energia muito alto; a tarifa energética no Brasil é alta e isso faz com que haja uma atratividade para investir em um sistema próprio. Além disso, temos disponíveis tanto as melhores tecnologias quanto expertise para importação, facilitando com que os produtos cheguem no Brasil; portanto a soma das variáveis fez com que a energia fotovoltaica apresentasse um crescente nos últimos anos.
Na sua opinião, quais os principais entraves ou desafios que a geração distribuída de energia encontra hoje no Brasil?
Nós temos desafios principalmente relacionados com os temas legislatórios. O Brasil tem como característica, a gestão do setor elétrico feito por uma agencia regulatória, a ANEEL (Agencia Nacional de Energia Elétrica), que criou as bases para o crescimento da geração distribuída no Brasil em 2012 com a resolução 482 e posteriormente com a resolução 687 que complementa a 482, ambas contribuíram para o crescimento da GD no Brasil.
Nos últimos anos, houve e há uma expectativa de investimento dos players do mercado; contudo as possíveis mudanças que podem ser promovidas pela ANEEL, que poderiam impactar positivamente o mercado, foram colocadas em standy-by. No meio desse caminho tivemos uma pandemia, a qual ninguém previa, e a discussão ficou parada; esta discussão deve ser retomada para garantir a segurança jurídica e financeira dos investimentos.
Existem outros desafios, o sistema Brasileiro é um sistema de net metering, uma compensação de energia, validada pela distribuidora de energia; nós temos percebido alguns entraves nessa relação como, por exemplo, a demora para aprovar um parecer de acesso ou para aprovar um sistema; além disso, temos as variações de regras entre as distribuidoras, é preciso uniformizar as regras do jogo para que se possa operar com mais agilidade e segurança.
O Brasil tem passado por uma mudança significativa em relação a geração de energia. Como você vê a evolução da geração distribuída no sentido legislativo e de incentivos fiscais.
Nós temos diversos incentivos. Desde a perspectiva do produto, há uma redução de tributos para a comercialização e a importação de módulos, o que ajuda a tornar o valor final bem mais accessível para todos.
Neste momento, há uma discussão sobre a efetividade desses incentivos, especificamente do Ex tarifários, porque ele define o valor de entrada do bem em reais e, nós temos sofrido uma pressão cambial muito forte o que faz com que o produto não atinja o valor para que tenha validade.
Outro benefício fiscal dos sistemas fotovoltaicos é, por exemplo, a ausência da cobrança de ICMS no net metering, já que se entende não há uma relação de consumo e sim uma relação de troca. Também existem alguns benefícios pontuais dos municípios, algumas cidades têm permitido descontos na tarifa do IPTU, por exemplo, para as pessoas que fazem uso de energias renováveis.
Qual é sua visão do setor de geração distribuída para o próximo ano, sendo um ano de transição pós pandêmico?
Eu tenho convicção de que o setor continuará crescendo porque energia é um bem essencial, nós estamos tendo uma consciência global de que não podemos continuar gerando energia como fizemos nos últimos 100 anos, não dá para continuar queimando combustível fóssil principalmente quando já existem soluções mais limpas.
A geração distribuída de fonte fotovoltaica está muito ligada aos 3D: Digitalização, Descentralização e Democratização da forma com que se usa a energia. Permitir que as pessoas e empresas consigam gerar sua própria energia é muito interessante.
A mobilidade elétrica está vindo muito forte, o armazenamento está vindo muito forte e essas mudanças vão ser muito rápidas. Não vejo outro caminho a não ser o crescimento.






Comentarios
Sé el primero en comentar...