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Entrevista: “Há muito a ser feito no Brasil para melhorar o uso da energia”


Atualmente se discute no Brasil possíveis medidas para  mitigar o risco de um colapso da rede elétrica em decorrência de uma crise hídrica. A Review Energy conversou com o Frederico Rocha de Araújo, membro da Associação Brasileira de Conservação da Energia ( ABESCO), para conhecer suas ideias sobre este tema.

1. O Brasil está passando por uma importante crise hídrica, a qual  está colocando em risco o fornecimento de energia elétrica. Que soluções o senhor visualiza neste momento para resolver a crise?

Nós temos algumas frentes possíveis de atuação como, por exemplo, a questão da eficiência energética. Nós somos um país ineficiente do ponto de vista energético; o Brasil ocupa a 20° colocação, em eficiência energética,  entre os  25 maiores consumidores de energia do mundo.

Há um grande desperdício de energia principalmente na indústria; embora o comércio, o setor de  serviços  e as residências também sejam fatores importantes, eles não afetam a matriz energética como a indústria. Para se ter uma ideia, nossa indústria tem um potencial de economia anual de 4 bilhões de reais, isso representa 3 vezes a geração da maior usina de carvão,  o PC1 no Pará,  e quase o 18% da geração da Itaipu.

O desperdício no comércio é de 2.4 bilhões de reais, isso equivale a 17% da usina de Belo Monte. Então há  uma ineficiência muito grande no uso de energia , nos diferentes setores, e nós precisamos trabalhar muito a mudança de hábitos de consumo.

2. Considerando estas condições  um racionamento de energia poderia ser evitado para os próximos meses?

Primeiro precisamos melhorar o processo educativo, o governo terá que comunicar a crise e como reduzir o desperdício de energia em campanhas educativas

Medidas provisórias deverão ser tomadas em que o governo defina uma política pública de eficiência energética baseada nos  indicadores de eficiência energética da indústria em  outros países. Faltam padrões de eficiência energética e precisaríamos aproveitar este momento para  colocar em prática uma política de redução de consumo de energia associada à mudança de hábitos.

Quando você tem uma imposição de lei estabelecendo padrões e condutas isso acaba entrando na cultura; nos últimos anos a política pública em termos de energia ficou muito amparada na geração renovável , e não na geração e consumo como um todo, nós precisamos mudar isso.

3. A eficiência energética poderia ser um componente importante para reduzir o consumo e de certa forma ajudar a combater está possível crise energética, quais estratégias o senhor recomendaria para o uso de energia residencial, comercial e industrial?

Em relação ao consumo residencial o primeiro item é a mudança de hábitos de consumo; além disso, temos o uso dos dispositivos com certificados Procel, que é o selo de eficiência energética para  equipamentos. Ainda, uma série de medidas podem ser tomadas  como utilizar lâmpadas com tecnologia LED, instalar boilers solares para aquecimento de água, reduzir consumo stand by de equipamentos, mudar um pouco a arquitetura das construções. 

Quando olhamos para o comércio , serviço e indústria muitas coisas que podem ser feitas. Desde de trocar a iluminação por LED ; motores elétricos de alto rendimento; automação de motores e uso de inversores ; o uso de madeira certificada para gerar vapor na industria; substituição de fornos obsoletos por mais modernos; e, a ainda pouco utilizada  cogeração utilizando o resíduo térmico do processo; etc.

Ainda há muito o que ser desenvolvido no Brasil; nossa indústria sofre com a falta de investimento nos últimos anos e isso faz com que sua estrutura seja, em grande parte, obsoleta. 

4. Em todo o mundo estamos passando por um período conturbado graças a pandemia do Covid-19, como o senhor visualiza o mercado da eficiência energética e as energias renováveis nos próximos meses? Qual a sua projeção para este tema no período pós pandêmico?

As nossas projeções, devido à análise de vários fatores, são as melhores possíveis. Há uma previsão de aumento de PIB  nos próximos meses.  Somado a esse crescimento do PIB temos a questão do ESG, cada vez mais importante no mundo, e essa conjunção de fatores hoje traz uma perspectiva muito positiva para o mercado da eficiência energética e das energias renováveis nos próximos anos. Um  mercado que já está bastante aquecido no Brasil.

 

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