"A integração energética existe e tem sua viabilidade graças a complementariedade dos sistemas energéticos nos países da América do Sul"
Os projetos de energias renováveis crescem de forma importante no Brasil. Junto ao crescimento da oferta de energias renováveis surge um outro elemento muito importante; os sistemas de transmissão de potência.
A Review Energy conversou com Paulo Cesar Vaz Esmeraldo, consultor da State Grid Brazil Holding, para conhecer sobre a evolução dos sistemas de transmissão no Brasil e uma possível integração energética com outros países da América do Sul.
Na sua opinião, quais principais mudanças devem ocorrer, no setor de transmissão, para suportar o crescimento da participação das energias renováveis na matriz energética brasileira?
Nos últimos anos a implantação de energias renováveis cresceu significativamente no Brasil, porém o timing entre a implantação de usinas renováveis e a do sistema de transmissão nem sempre foi o esperado.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a energia eólica; em um dado momento foram realizados vários leilões de usinas eólicas e, houve um planejamento para que houvesse a conexão dessas usinas ao sistema interligado brasileiro; contudo, a viabilização de redes de transmissão é mais lenta e esbarra em diversas questões, como as ambientais. Em resumo, houve uma diferença entre a disponibilidade da geração e a disponibilidade da transmissão.
No decorrer dos anos esta situação tende a se resolver, de fato, os sistemas de transmissão já se ajustaram mais temporalmente à instalação das usinas renováveis e, muita atenção tem sido investida para garantir a estabilidade e manutenção dos sistemas.
Considerando o crescimento das energias renováveis no Brasil e, também em outros países da região, existem iniciativas (politicas, técnicas e/ou econômicas) para tentar integrar o sistema elétrico na América do Sul?
A discussão acerca da integração energética existe e tem sua viabilidade graças a complementariedade dos sistemas energéticos nos países da América do Sul. A integração permitiria utilizar a complementariedade energética a partir de fontes renováveis e, com isso, estabelecer um ambiente sustentável e a favor de descarbonizacão.
A discussão se dá nos campos político, econômico e tecnológico. Contudo, a engenharia elétrica está totalmente capacitada para permitir a transmissão de energia entre uma região A e uma região B, em qualquer que seja o comprimento da linha de transmissão; logo o problema não seria tecnológico. O principal entrave se dá nas áreas política e econômica, na América Latina se observa diferenças ideológicas que, ainda persistem de uma forma muito mais contundente do que em outras regiões do mundo.
O senhor considera que esta integração tem viabilidade econômica ou seria melhor que cada pais desenvolvesse sua própria rede elétrica separadamente?
Existem estudos demonstrando que é possível realizar a transmissão de energia, a longa distância e entre grandes blocos de potência, de maneira mais econômica do que instalando uma usina no próprio país; claro isso dependeria de diversas variáveis como distância, montante de energia a ser transferido e etc.
Nesse sentido, a questão econômica obviamente é de suma importância; a crise econômica na América Latina não possibilita essa integração, pelo menos a curto prazo. Talvez mais a longo prazo, buscando formas mais bem definidas e econômicas; como se deu no passado com a instalação da usina de Itaipu, uma usina binacional, entre dos países que estavam, naquele momento, politicamente afinados.
Qual o papel de organismos e instituições como a OLADE, GEIDCO, entre outras, no fortalecimento da integração dos sistemas energéticos na América do Sul?
Diversos organismos vêm incentivando a integração energética na américa do Sul, entre eles estão a OLADE e o CIER e; especificamente na América Central está o SIEPAC.
Temos também a GEIDCO que é uma instituição chinesa, de caráter internacional, que busca incentivar a interligação entre países. A GEIDCO está participando ativamente da discussão relacionada a integração de sistemas energéticos em vários continentes e conta com um contingente de especialistas chineses com grande experiência no tema; a chegada da GEIDCO vem para ajudar a alavancar a união entre instituições de modo que venhamos a pensar de uma forma coletiva em busca dessa integração regional.
Apesar da pandemia, em 2020 o setor de energias renováveis continuou crescendo no Brasil, qual é sua visão para o futuro das energias renováveis no próximo ano?
A pandemia causou uma retração no mercado de consumo de energia elétrica, mas recentemente nós já temos notícias de que o consumo de energia elétrica, no Brasil, já começa a voltar aos patamares anteriores.
O Impacto da pandemia no setor elétrico é pequeno no ponto de vista de Geração, o impacto maior é econômico; nas tarifas de energia elétrica e na inadimplência junto as distribuidoras. O governo tem tomado diversas medidas nesse sentido e em breve devemos ver a retomada do planejamento previsto para a área, com diversos leilões em 2021.





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